A INSERÇÃO E DIREITO AO ACESSO DA FISIOTERAPIA NO CONTEXTO DA ATENÇÃO BÁSICA NO CENTRO-OESTE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Resumo
Introdução: "Que surpresa, cheguei no território!
Cidade nova, de maioria gente nova.
A região?
Esse povo vem da Bahia e Maranhão.
Gente boa e trabalhadora.
Batalhadora, correndo atrás do pão.
Essa classe, lavradora pra todas as outras
Pode ser por isso, articuladora.
O território, repleto dessa gente
Tem demandas urgentes
Asfalto, saúde e educação
Não é a melhor perfeição.
O básico também tá à míngua
Parece que nem falam a mesma língua
Tô falando de cultura e lazer
Pra fazer a alma se mover
Mas não por isso
Tem vida pulsante dentro disso
Pq a geografia delimita,
Mas a cidade é feita, por essa gente bonita."
(Ccr, 25/03/2025)
A fisioterapia, profissão historicamente marcada por práticas tecnicistas e hospitalocêntricas, ocupa de forma ainda tímida a Atenção Básica. O território de atuação, tem como população adscrita pessoas prestadoras de serviços como diaristas ou pedreiros. No entanto, quando a confluência desses atores acontece, também surgem os questionamentos sobre essa nova realidade. Este relato tem como objetivo refletir acerca dos labirintos da necropolítica na inserção e acesso à fisioterapia em um território de alta vulnerabilização social, a partir da vivência de uma fisioterapeuta residente em saúde.
Métodos: Relato de experiência de natureza qualitativa e descritiva, elaborado com base em observação participante, diário de campo, processo de territorialização e análise documental, incluindo relatórios de produção interna.
Resultados/Discussão: O diagnóstico situacional revelou um território de alta vulnerabilização social, com população majoritariamente migrante da região nordeste, composta por prestadores de serviços domésticos, diaristas, da construção civil e porteiros; perfil que levanta uma pergunta central: por que essa profissão nunca esteve presente na UBS? As demandas concentradas no adoecimento relacionado ao trabalho e a permanência de dores crônicas revelam corpos adoecidos pelas condições de classe, evidenciando como determinadas populações são estruturalmente privadas de certos cuidados, o que a noção de necropolítica permite nomear com precisão.
A experiência foi orientada por uma abordagem contra-colonial e dialógica, que reconheceu o saber popular como legítimo durante todo o processo terapêutico, facilitando assim a literacia em saúde. Muitos usuários relataram melhora significativa já nas primeiras orientações, pois haviam compreendido o que lhes acontecia. A inserção da fisioterapia nas ações de saúde coletiva demonstrou que equidade não é apenas oferta de serviço, é presença, escuta e reconhecimento. A residência em saúde revelou-se, nesse percurso, um espaço político de questionamentos e disputa pelo direito ao cuidado; cuidado este, requerido por aqueles da base inversa da sociedade.
Considerações finais: A vivência relatada reafirma o SUS como território de disputa e defesa dos direitos humanos, e convoca profissionais de saúde a ocupar os territórios sobretudo os vulnerabilizados, com uma prática emancipadora, contra-colonial e comprometida com a justiça social. Este panorama pode se reproduzir em outros territórios, cabendo ao profissional residente a aptidão para a indagação e reflexão crítica da realidade que se apresenta. E que acima de tudo, que esta filosofia também possa ser transmitida ao cidadão. Ampliar a pesquisa e produção científica sobre o tema e reformular currículos são passos urgentes nessa direção.
Palavras-chave
Pôster
CAMILA COSTA RABELLO. A INSERÇÃO E DIREITO AO ACESSO DA FISIOTERAPIA NO CONTEXTO DA ATENÇÃO BÁSICA NO CENTRO-OESTE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA. In: Anais do 16º Encontro Nacional de Residências em Saúde, 2026, João Pessoa, Paraíba. Anais do ENRS. Movimento Nacional de Residências em Saúde, 2026.
