FISIOTERAPIA NO SISTEMA PENITENCIÁRIO: A RESIDÊNCIA EM SAÚDE NO TERRITÓRIO E NO CUIDADO.
Resumo
Introdução: "Talvez muitos compelidos pela pressão
De não ter outra ocupação
Ofereceram seus corpos à dureza
À dureza do ofício que desafia a natureza.
Há de ser forte.
Porém, por meio dele se preenche o bucho
E disso, se faz bom uso.
Nota-se um ar, demasiadas brincadeiras
Talvez pra aliviar as outras dores que apareçam.
De lá, ou de cá, percebemos o quanto se cobra
A necessidade de trabalhar.
Na máquina de moer gente,
Dos corpos, a conta é mais severa
De quem está na base do não-ócio.
No final da fila,
Está quem sustenta a lida.
E a conta não fecha,
Mas é como flecha
Direto ao alvo, de quem desafia a vida."
(Ccr, 12/05/2026)
A saúde dos trabalhadores do sistema prisional é um campo historicamente invisibilizado nas políticas públicas e na formação em saúde. Este relato tem como objetivo compartilhar a vivência de uma fisioterapeuta residente em saúde, atuante em uma ação de cidadania em unidades penitenciárias, refletindo sobre o cuidado às pessoas trabalhadoras desse lugar e sobre a potência da residência como espaço de formação em territórios de extrema vulnerabilização.
Métodos: Relato de experiência de natureza qualitativa e descritiva, elaborado com base em observação participante, diário de campo e registros pessoais produzidos durante ação de cidadania realizada em unidades penitenciárias de um estado da região Norte do Brasil.
Resultados/Discussão: A atuação fisioterapêutica foi direcionada aos servidores penitenciários, população composta majoritariamente por homens com demandas concentradas desde dores lombares e lesões diversas por esforço repetitivo até sequelas de procedimentos cirúrgicos antigos sem reabilitação adequada. Foi possível notar que, à medida que o trabalho foi se deslocando para cidades do interior do estado, mais tempo duravam as consultas, devido às múltiplas queixas osteomioarticulares. Esse fenômeno tinha um motivo: muitos desses trabalhadores carregavam, antes mesmo do ofício penitenciário, relatos de trabalhos "na roça" desde a adolescência, como apanhadores de açaí, serventes de pedreiro ou trabalhadores rurais, revelando o adoecimento por décadas de condições de classe invisíveis ao sistema de saúde.
No que tange ao fazer fisioterapêutico nesse contexto, as intervenções incluíram auriculoterapia, avaliação e diagnóstico fisioterapêutico, exercícios de mobilidade ativa, educação em saúde com entrega de 'cartilhas' de simples compreensão e execução, com exercícios para uso autônomo. A abordagem dialógica permitiu que cada pessoa compreendesse seu processo de adoecimento, favorecendo a autogestão da saúde ao longo do tempo. Muitos relataram melhora imediata das queixas álgicas na primeira série de exercícios de mobilidade orientados.
Considerações finais: O contato com pessoas trabalhadoras do sistema penitenciário daquele estado revelou uma outra conjuntura e, um outro olhar se apresenta à outra face de uma mesma moeda. A experiência reafirmou que o cuidado integral exige presença em territórios onde o SUS ainda chega de forma tímida. A residência é um espaço em que os profissionais de saúde, expostos à experiências únicas e diversidficadas, questionando e debatendo a realidade posta, por ter essa formação, serão profissionais capazes de atuar com humanidade e compromisso, nos mais variados cenários.
Palavras-chave
Pôster
CAMILA COSTA RABELLO. FISIOTERAPIA NO SISTEMA PENITENCIÁRIO: A RESIDÊNCIA EM SAÚDE NO TERRITÓRIO E NO CUIDADO.. In: Anais do 16º Encontro Nacional de Residências em Saúde, 2026, João Pessoa, Paraíba. Anais do ENRS. Movimento Nacional de Residências em Saúde, 2026.
